Enterro Animal!!!
Carmen Sílvia Musa Lício
Há muitos anos, tive uma inquilina morando na casinha dos fundos da minha, com a irmã e duas cadelas (mãe e filha), da raça Schinauzer…
Como sempre moraram em apartamento, as duas (cadelas) estavam acostumadas a ficar dentro de casa e eram soltas no quintal, onde latiam muito, devido à novidade… Haja latição!!!
Nesta época eu não tinha telefone fixo e celular ainda estava começando a aparecer, não sendo ainda para “pobres mortais”…
A cadela-mãe tinha um problema cardíaco, e tomava remédio para o seu coraçãozinho… Volta e meia descompensava no meio da noite, sendo necessário ir a um telefone público para ligar para o veterinário para ele dar uma conduta… E as irmãs iam, em meio a escuridão, a um telefone público que ficava em um lugar meio suspeito; perigoso até…
Depois de um tempo, a irmã resolveu se mudar, deixando-a sozinha com as cadelas, sendo que quando havia alguma emergência ela tocava a minha campainha para me pedir socorro… Eu, sonada, a acompanhava até o “orelhão” e depois voltávamos para os cuidados de enfermagem (ela era enfermeira)… Confesso que não ia muito feliz… mas ia!!!
Isto aconteceu por diversas vezes e, numa delas, tivemos que procurar, de carro, um orelhão mais distante, pois o próximo havia sido depredado… A nossa sorte é que a minha irmã estava nos Estados Unidos com o marido e deixou o carro guardado na garagem da minha casa, e eu só o usava em caso de emergência… Com certeza minha irmã não pensava em uma “emergência canina”, mas… Era uma emergência!!!
Em uma manhã de Sábado, a cadela começou a passar mal e o seu veterinário devia ter viajado, sendo necessário encontrar outro… Ela soube de um na zona Leste (eu moro na zona Oeste, mero detalhe!)…
Ela marcou a consulta e lá fomos nós, em pleno Sábado, de carro, percorrendo uns 30 quilometros até chegar ao bendito consultório, tão longe e difícil de encontrar… E foi só chegar lá, ele a colocar na mesa para examinar, e a cadela “estrebuchou”, “revirou” os olhos e morreu, sem dar tempo para o veterinário fazer nada, absolutamente nada!!!
Eu estava na sala de espera e a escutei chorar bem alto, num desespero só!!! parecia que havia perdido toda a família… Entrei para consola-la, tentei acalma-la e, enquanto ela se desesperava, o veterinário disse que não poderia incinera-la, pois o crematório público estava em greve… Só de escutar a palavra “incinerar”, a “enfermeira enlutada” começou a chorar mais desesperada ainda, aos prantos, audíveis a bons quarteirões…
Eu, que achei que o problema da triste cadelinha havia terminado, percebi que o meu apenas começara!!!
Então, o veterinário, todo solícito, disse que havia um cemitério para animais, onde ela poderia ser enterrada com toda a dignidade possível (e até impossível!!!) Ficava depois de Osasco, na rodovia Castelo Branco, e ele teria que leva-la em um carro especial para “funeral animal”…
A consulta (sim, claro que ele cobrou!!!), os encargos com os cuidados pós morte, o traslado, o cemitério… tudo ficaria uma pequena fortuna, que a dona não tinha… (diga-se de passagem, a mesma não me pagava aluguel há muito mais de um ano…)
Eu fiquei calada, pasma, sem saber o que fazer e o que dizer… Minhas “animalas” sempre foram bem tratadas em vida, mas o enterro sempre foi “à moda antiga”, num buraco no jardim, ou em algum terreno baldio… Às vezes até fazíamos um pequeno cortejo, um “culto” à beira da cova, quando crianças…
Então, num rasgo de coragem, ela disse que se eu a levasse (não ela, mas a cadela!) no porta malas do carro até o cemitério, o resto ela pagaria… (O valor do traslado era o valor do aluguel!!!)
Então, vencida pela situação, acabei colocando o corpo no porta malas, com toda a dignidade e respeito que a situação exigia, e fomos em busca do “cemitério dos amigos do homem”. Após andarmos bastante, encontramos o local, onde nos ajudaram a retirar o corpo para coloca-lo em uma sala de velório… e eu, que nem gosto de velório, me vi a velar o corpo inerte da nossa amiga “animala”!!!
Enquanto um rapaz ficou cuidando do caixão, nós fomos levadas para ver os locais onde poderia ser enterrada, de acordo com a sua vontade, e possibilidades financeiras…
Primeiro, nos mostraram o local mais barato, uma espécie de vala comum, onde os animais eram colocados, um em cima do outro, sem qualquer “gentileza”… Depois jogavam uma pá de cal, para que fosse um aterro sanitário…
Até eu fiquei um tanto impressionada… Ela não aceitou tanta falta de cuidado para a sua cadelinha, que lhe acompanhou por tantos anos… O preço era mais acessível, mas estava fora de cogitação!!!
Então fomos levadas a um local mais nobre, com lápides e alguns mausoléus em honra aos amigos animais… Pelo preço, também estava fora de cogitação!!!
Finalmente nos mostraram um local num enorme jardim, muito bem cuidado, onde eram enterrados em covas no chão, e colocava-se uma placa de ardósia com letreiro indicando qual o animal que estava “descansando” ali…
Feitos os acordos, divididos em 6 prestações (do valor do aluguel!!!), fomos para o local do velório, onde ficamos velando o corpo enquanto eles abriam a respectiva cova…
Confesso que em meio aos meus pensamentos saltavam tanto pensamentos consoladores (pois a sua dor era enorme e visível!!!), como pensamentos de revolta, afinal, era só um animal… E pensamentos de mais indignação ainda, por prever que continuaria a ficar sem o aluguel por mais tempo, agora “plenamente justificado”.
Quando tudo ficou pronto, acompanhamos o caixão até o local, em silêncio, vimos enterra-lo, e voltamos para o carro, pesarosas…
Havia muitas famílias lá visitando os seus animais queridos, levando flores… O sítio era um local muito aprazível, cheio de árvores, gramado e flores… Fiquei imaginando que a maioria das pessoas não tem este privilégio de serem enterradas num local tão lindo!!! Apesar que quando eu morrer não “estarei nem aí” para onde me enterrarem, afinal, já não estarei mais aqui!!!
Ao voltarmos para casa, ela chorou muito e eu, como boa enfermeira, dei suporte emocional… Disse aquelas coisas que se diz em qualquer velório (!!!) Ela me agradeceu muito e cada uma entrou na sua casa… Já era mais de 15 h!!!
Até hoje, quando conto o fato para alguém, causo um misto de pena, revolta e… muitas gargalhadas!
Nunca mais me esquecerei deste enterro canino!!!