Carmen Sílvia Musa Lício
Mais uma vez vou escrever sobre pedofilia… Não porque seja um assunto fascinante; ao contrário…
Quando era auxiliar de chefia em um Posto de Saúde, há muitos anos, tive que lidar com um caso bem preocupante… Estava na sala da chefia quando vieram me falar sobre uma criança cuja mãe queria um esclarecimento… Fui atende-la e vi que o caso era bem pior do que eu poderia imaginar…
A mãe disse que estava preocupada com as suas filhas, de 9 e 8 anos, que estavam com problemas ginecológicos… Consegui uma consulta para elas com a médica do posto, e fui tratar de outros assuntos…
Após alguns dias a mesma mulher me procurou dizendo que estava muito angustiada pois achava que o marido estava seviciando as suas filhas… Fiquei com os cabelos “em pé”, mas, como boa enfermeira, minha aparência externa continuou a mesma… Conversei com a pediatra que estava cuidando das crianças e ela disse que achava que era uma acusação muito séria, que não queria se envolver, inclusive pela clientela do Posto ser bastante “bandidosa”…
Após alguns dias, a médica ginecologista achou que as duas estavam com “condiloma acuminado”, uma doença transmitida sexualmente…
Então começou a nossa história!!!
Conversei com meu chefe, que, como sempre, se absteve de dar alguma ajuda mais efetiva… E eu fui ficando com aquela “batata quente” na mão, sem saber bem por onde começar, e o que fazer…
Resolvi encaminha-las para um hospital de grande porte, especializado em mulheres, onde haveria maior probabilidade de tomarem uma posição mais investigativa, mais efetiva, sem maiores problemas para os profissionais envolvidos…
Após a consulta, nos foram reencaminhadas, sem maiores soluções… Apesar de eu haver ligado antes e falado com a assistente social de lá contando da hipótese, pedindo uma melhor assistência…
Isto foi me incomodando e como tínhamos muitos outros problemas para resolver, o tempo foi passando…
À noite, quando eu ia dormir, orava e ficava a pensar na melhor solução, na atitude a tomar… Convém lembrar que naquele tempo não havia um protocolo legal com relação a abusos contra crianças…
Um dia, a mãe apareceu com as duas meninas, querendo saber o que poderia ser feito, afinal… Como estavam presentes na hora a pediatra, a gineco, meu chefe e eu, resolvi que estava mais do que na hora de colocar um ponto final nesta situação…
Falei com a pediatra, que pulou fora, rapidinho; falei com meu chefe, que achou “muito complicado”, falei com a GO, que disse que poderia tentar manda-la para um hospital de referência mais próximo… Então, pedi para ela fazer o encaminhamento e o contacto e, sem pensar muito, já cheia de tanta falta de postura e conduta, virei-me para a mãe e disse, de repente:-”Chama o seu marido aqui que eu quero falar com ele!!!”
Eles vieram no mesmo dia; meu chefe saiu “pela esquerda”, e eu os convidei a se sentarem. Olhei bem para os dois e disse:-”Suas filhas tem uma doença transmitida sexualmente” E esperei uma resposta, calmamente, depois da minha “frase de efeito”. Confesso que eu também não sabia direito como conduzir a conversa…
Ele gaguejou e perguntou se não poderia ter havido algum engano… Disse que não, e que esta doença só se pega através do ato sexual, e não em assentos, banheiros ou qualquer “bobajada”. Depois perguntei com quem elas ficavam enquanto a esposa trabalhava… Ficavam com o pai, desempregado, e com alguns vizinhos, inclusive com um tio que morava no mesmo quintal…
Foi uma conversa de “gato e rato”. Então, eu disse:- “De acordo com o conselho tutelar, o primeiro suspeito é o pai, inclusive por ser responsabilidade legal de vocês, como pais, salvaguarda-las de qualquer ato que possa atentar contra a segurança delas, e você, como pai, tem a obrigação de defende-las de qualquer perigo…”
Disse que estava conseguindo uma consulta para elas no hospital e que esperava nunca mais saber de qualquer coisa que as deixasse em situação de risco, senão teria que denunciar às autoridades competentes… Levei-os até a porta, com muita educação, me despedindo e desejando no íntimo que nunca mais elas tivessem que passar por tal situação…
Após uns dois meses, encontrei a senhora na rua, com as duas meninas e perguntei a ela qual havia sido a conduta do hospital… Contou que elas passaram pela psicóloga e que a doença não era nada grave… Como nós não temos o retorno dos casos que encaminhamos, em sua maioria, pedi para que me falasse do diagnóstico e, mais tarde, ela disse que “era só condiloma” (!!!)
Resolvi ligar para o hospital e conversei com a diretora, que me informou que o caso delas não foi muito à frente, pois a família se fechava “em copas” e a psicóloga não conseguiu que ninguëm se abrisse…
Fiquei com uma sensação de gosto amargo na boca, achando que, afinal, tudo tinha sido em vão, pois não se conseguiu resolver nada…
Após um tempo, a senhora trouxe o marido com um pequeno tumor na cabeça e eu, apesar de tudo, arranjei um local para que o mesmo pudesse retira-lo e fazer biópsia… Tratei-o muito bem, apesar de lá no fundo me dar uma certa vontade de acertar “em cheio o seu fundilho”.
Bom, para não me alongar mais, após um tempo, a “dita cuja” veio, novamente grávida, e apavorada, pois apesar de eu haver agilizado o processo de esterilização, não havia conseguido uma laqueadura a tempo, mesmo preenchendo os requisitos formais… Acompanhei toda a sua gravidez, e o seu imenso temor de ter mais uma menina…
Quando nasceu, ela trouxe para eu ver a linda menininha que nasceu, loira e de olhos azuis… Estava apavorada e me disse que se eu a quisesse para criar, me daria ela na hora, pois temia por esta nova criaturinha!!! Me deu uma vontade louca de leva-la para casa, mas… Disse a ela para chamar o seu marido, para que eu pudesse conseguir uma laqueadura para ela…
Quando ele veio, fiz novamente o processo para a laqueadura, e “aproveitei” para dizer que aquela criança estava sob os cuidados deles, que era inocente, completamente indefesa e dependente, e que se eu soubesse de algo, por menor que fosse, iria ao conselho tutelar para que eles dessem maior segurança ao bebê, tirando-a dos pais, e que eles acabariam por investigar toda a vida pregressa do casal…
Laqueadura feita, resolvido o assunto, só as encontrava na rua, próximo ao Posto, e ficava sabendo um pouco das suas vidinhas… As meninas cresceram, já são adolescentes e são muito lindas… E sempre me abraçam com muito amor!
Mas sempre ficou na minha mente até que ponto eu as havia ajudado, afinal… A mãe, sempre que me encontrava no corredor do posto ou na rua , dizia para quem quisesse escutar, que, para ela, era “Deus no céu e a dona Carmen na terra”… Eu ficava muito sem graça…
Então, cheguei à conclusão que o “famigerado” não mais as importunou e que a bebê nunca foi molestada…
Senti que, apesar de ninguém denunciar o pai, a situação ficou resolvida, e a família começou a se entender melhor… Cheguei a dizer às adolescentes que, se por ventura fossem novamente molestadas, viessem me procurar que eu tomaria outras providências… e nunca mais fiquei sabendo de nada deste tipo.
Espero realmente que este capítulo das suas vidas tenha sido encerrado!!!
PS: Só consegui a laqueadura para a senhora após uma discussão enorme com a assistente social, que me disse que não havia indicação de laqueadura pelo motivo social!!! E eu perdi a paciência, desligando o telefone e ligando novamente para a diretora da Maternidade, sendo então atendida… Após muitas considerações a respeito (!!!)